sábado, 7 de novembro de 2015

Me desculpe

Primeiramente, me desculpe.

Me desculpe por não atender suas expectativas. 
Me desculpe por gostar mais de água de côco do que de cerveja, de vinho do que de whisky e de acarajé do que de um big mac.
Me desculpe por ver a vida tão mágica e bela e achar, infantilmente, que a fantasia pode superar a aspereza do cotidiano.
Me desculpe se faço malabarismos com o humor e com a imaginação pra tentar te agradar em vão.
Me desculpe se minha resiliência de nada lhe serve e que você acha que isso não passa de psicologismos.
Me desculpe também se a comunicação é truncada e eu lhe pareço inacessível.
Me desculpe se ando cansado, sabe como é né? A rotina é cruel.
Me desculpe se fui leal e franco, ainda que soubesse que seria desnecessário.
Me desculpe por gostar mais de Gilberto Gil, Alceu Valença e Lambadas do que de Caetano, Otto e bossa nova.
Me desculpe por insistir teimosamente em ser lúdico e não em ser prático e objetivo num terreno de concreto.
Me desculpe pela fé no misticismo e na espiritualidade e por acreditar que existe algo maior.
Me desculpe por tentar e me desculpe também por te querer bem.
Me desculpe por acreditar na mudança do outro.
Me desculpe sobretudo pelas numerosas desculpas.
Me desculpe também por ser humano.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Dizendo sobre o Lema

Dizem que para viver, basta ter um lema
Dizem que para ter, basta viver um lema
Dizem que para viver, basta ser o seu lema
Dizem que basta, viver um lema
Dizem que seu lema basta.
Dizem também que basta!
O basta pode ser o lema
Dizem lemas sucessivamente
Disseram tantos lemas
Que a vida se apresentou como um dilema!

Vínculos: espécie em extinção

Descobriram água em Marte, nosso DNA já pode ser mapeado e a espécie pode ser clonada. Estudos avançados indicam que a cura do Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas está próxima. Temos todos (e mais um pouco) recursos naturais e tecnológicos disponíveis para viver bem: alimentação, habitação, trabalho e lazer. A medida da escassez ou da abundância vai variar conforme o que cada um considera supérfluo.
Ficamos abismados e esperançosos com as descobertas tecnológicas e as evoluções da ciência e da genética. Nesse deslumbramento tecno-digital-científico esquecemos de nós mesmos. Da nossa espiritualidade, do outro e do valor que o afeto pode ter, sobretudo nos dias de hoje de degradação social e de escassez de vínculos apesar da abundância de pessoas.
É provável que em 2035, ou talvez antes, o vínculo seja simbolizado no "Museu do Vínculo" para não cair no esquecimento da sociedade e garantir sua preservação. É bem provável também que o museu se torne patrimônio cultural da humanidade assegurando sua continuidade para futuras gerações dada sua relevância para a humanidade. No museu as pessoas se cumprimentam, trocam gentilezas, tomam café, leem revistas e jornais, conversam entre si, respeitam os que vão chegando e apresentam o museu de forma deliberada e democrática. Fazem jogos, brincadeiras e não têm vergonha de demonstrar seu lado lúdico. Ou seja, exercem, perpetuam e curtem a prática da vinculação com o outro.
Porém, ao saírem do museu, sempre se deparam com a mesma triste realidade, com vários cartazes estampados nos postes e muros da cidade:
"Procura-se!!! VÍNCULO... espécie em extinção. Recompensa: um abraço"

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Divertida Mente

Não só quem tem filhos, sobrinhos e afilhados, mas também os que não têm devem assistir esse filme que consegue ser tão lúdico quanto lúcido. Uma viagem ao mundo cognitivo-psicológico que nem o mais competente neurocientista poderia mostrar em sua pesquisa acadêmica.

 O filme narra a interação de 5 emoções básicas sob formas de criaturinhas estereotipadas que disputam o painel de controle das emoções de uma criança pré-adolescente: alegria, a tristeza, o medo, a raiva e o nojinho. Elas vão se revezando e alterando o humor na medida em que ocorrem as situações cotidianas. Os eventos mais marcantes criam as "memórias-base" que servem por sua vez para sustentar as "ilhas da personalidade": ilha da honestidade, ilha das bobagens/brincadeiras, ilha da família. A manutenção de cada ilha é abastecida pelas criaturinhas das emoções. Há também uma fábrica de sonhos e a terra da imaginação, mostrada com muito humor e criatividade.

 Nessa disputa a alegria tenta sempre prevalecer com sua animação contagiante. Porém, se não houver equilíbrio das emoções e o armazenamento adequado entre elas, as ilhas podem sucumbir. Tudo isso mostrado de forma ludicamente didática e preservando o mundo da fantasia infantil. Apesar de mostrar a alegria quererendo contagiar todos e tentar manter certa hegemonia, o filme consegue, sem ser apelativo, mostrar com sensibilidade a importância da tristeza como emoção que também pode criar possibilidades agregadoras.

 P.S.1 - Saí pensando em como a "adultização" da vida nos leva ao suicídio de nossa criança interior.

P.S. 2 - A criaturinha do medo é muito engraçada e o amigo-imaginário é um grande coadjuvante.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Alienado

Mente vazia é assim
Cada palavra dita é uma pedrada
pronta para ser lapidada
movimentos cíclicos de uma cabeça quadrada
que dificilmente será moldada




quarta-feira, 27 de maio de 2015

Exílio

Isolado e bem tratado
fragmentado.
Animado, motivado
largado
exilado
remediado


Destemido

Chegado a uma ironia
nunca se rende
nada lhe prende
vive da disritmia