quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Na multidão, a solidão



A minha lente é uma fresta
um olhar cansado que se renova
e todos os dias, rotineiramente, me prova
essa vida é mesmo uma grande festa
Bailes, serenatas, serestas
promovendo contemplação, integração e prosa
disfarçar seria como entrar numa cova
ignorando esse colorido mundo cinza-cor-de-rosa
colo uma etiqueta na testa
e denuncio nesta:
o eu-em-si-mesmo é o que me resta



sábado, 25 de outubro de 2014

De quantos partos você precisa para nascer?

O parto biológico é aquele que denuncia nossa chegada ao mundo. Cada vez mais um evento espetaculoso, cheio de holofotes e flashes para a mini-celebridade. Afinal, foi um parto. No dia simbólico, define-se signos, ascendentes, data de aniversário, que será comemorado até o fim da vida, e também demarca a idade cronológica. É o dia do parto, logo, um ritual.

 O processo de humanização, evolução e amadurecimento do sujeito em nada tem a ver com sua idade desde o seu parto. Muito menos tem um dia exaltado para ser comemorado ou um ritual para designar sua passagem, embora mais importante. Para atingir essas condições plenas, o sujeito precisa fazer o parto de si mesmo.

 Se fôssemos mais sensíveis e vulneráveis à visitação do outro em nós poderíamos transformar as dificuldades e asperezas cotidianas na singela arte do encontro. (Poderíamos...) Mas não desconsideremos o sofrimento, a frustração e a escassez. Uma reprovação naquele concurso, uma desilusão amorosa, uma família que se desmantelou, um projeto longo que tenha um recomeço improvável, uma retaliação no ambiente de trabalho. O que vale para o recém-nascido, também vale para nós: receber uma palmadinha e ouvir da vida, "bem-vindo ao mundo", pode ser doloroso e choroso.

 Nascer dói!

 O amadurecimento, a evolução e a humanização não estão condicionados ao choro, já somos adultos. Mas sim com o que fazemos com a nossa dor, causada pelo parto (para aqueles que assumem a hombridade em fazê-lo) nosso de cada dia.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dignidade X Individualismo

Soldado Prisco TERCEIRO deputado estadual mais votado da Bahia com 107.941 votos!

 Admitindo que sejam votos corporativistas e de familiares dos que compõem a corporação (racionalmente só consigo pensar nessa justificativa), essa votação significativa representa o seguinte pensamento do eleitor:

 "Elejo quem defende meus "direitos" (na verdade, quem me concede privilégios) independente de princípios éticos e de uma moralidade que respeite a ordem da vida coletiva. Ou seja, a forma como será feito não me interessa questionar ou criticar, desde que eu não me sinta prejudicado e que se alcance o objetivo de me trazer benefícios, diretos ou indiretos".

 A situação, que já não está boa, se torna ainda mais grave quando essa lógica se estende para outros eleitores.

 São tempos difíceis para a cidadania!

Coisas de Salvador

- O cidadão vai no Cine Vivo e o seu celular (que é da vivo!) não pega sinal

- 7:30 pra 8 horas da manhã. Vou no Sucos 24h no rio vermelho pedir um lanche. Adentrando o recinto a atendente me diz que o estabelecimento (que é 24h) ainda não está aberto (?)

- Quando a TV Bahia diz que vai nas ruas ouvir a opinião do torcedor, na verdade ela quer dizer que vai entrevistar as pessoas que passam em frente ao shopping Iguatemi

 - Flanelinha pede R$ 10,00 pra tomar conta do carro, pagamento antecipado. Eu digo que todo trabalhador só recebe depois do serviço prestado. Sem argumento, ele me sai com uma dessa: "Ô pai, ajude seu irmãozinho aqui! Deixe cinco conto aí que tá tudo certo, na moral!"...

Êta Bahia porreta!

sábado, 6 de setembro de 2014

Tirania da informação

Não há dúvidas que a informação trouxe muitos avanços, sobretudo para aqueles mais desfavorecidos que não tinham acesso a ela. Porém a rapidez como se alastra é muitas vezes um impasse ao pensamento crítico e questionador. A violência da informação e a segurança que a sociabilidade tecnológica oferece nos impõem uma categoria de “comportamento virtualmente domesticado”. Nos acostumamos com o conforto de nossas casas. Com o hábito de consumir apenas nas delicatessens, casas-lotéricas, pet-shops, bares e lan-houses do nosso confortável bairro. Nos acomodamos com algumas ideias estabelecidas. Assumimos a sofisticação como um modelo de vida em que um aparelho eletrônico é a extensão de nosso corpo em busca, também, de lazer, informação e distração. Para quê evitamos, cada vez mais, a prática do deslocamento urbano? E as pessoas?

 Ao abdicar de enxergar a era demográfica a partir do território, deixa-se de vivenciar a territorialidade e as populações, suas comunidades, ou pequenos grupos e suas micro-políticas, que trazem a possibilidade de um “novo universo simbólico”. Este novo, que não está nas interações tecnológicas e nem nos aplicativos digitalizados que facilitam nossas vidas como verdadeiros atalhos, comunica algo: permite a troca, produz conhecimento, gera aprendizagem e constrói vínculos afetivos. Basta haver interação e comunicação.

Informação nós podemos encontrar em qualquer lugar, em qualquer meio e das mais variadas formas, inclusive com pessoas. Mas comunicação, essa vai estar, exclusivamente, na arte do encontro. Que sempre é singular e único. Mesmo que os atores se repitam, pois, sempre é inédito.

A verdadeira vida sofisticada está em saber superar a contradição de vivermos, ao mesmo tempo, governados pela informação e sabotados pela (falta de) comunicação.

domingo, 17 de agosto de 2014

Sabotagem

Ter a clareza de que as coisas que queremos para nós e são suficientes para nosso bem-estar, nem sempre é garantia de que serão planejadas e executadas. Mesmo quando a consideramos um bom complemento para o nosso crescimento (material e espiritual).

Há muitos mistérios nos labirintos da psiquê e estímulos externos que nos convidam a dispersar, evitando, contraditoriamente, atingir essa plenitude. Mero devaneio? Vontade de capturar tudo ao redor? Ou medo de encarar de forma despreparada algo que vá desenvolver uma preparação cuidadosa para se evitar a reincidência no despreparo num situação subsequente?

Para evoluir é preciso superar esse ciclo: sensação provocada pelo novo-divagação/medo- retrocessos e fantasias.

 Sabotar a sabotagem, antecipando-a, é a chave!

domingo, 27 de julho de 2014

Desculpe, mulher moderna II (o retorno)

Como a primeira versão gerou muitas polêmicas e algumas mensagens "enfurecidas" direcionadas a mim (que não vieram por esta rede social), cabe ser mais direto e específico na minha mensagem que talvez não tenha  sido muito clara.

O tipo de mulher moderna a que me referi é aquela que está atenta as informações que seu meio lhe fornece, convive bem com as amigas (e isso lhe basta), faz viagens para contemplar a vida, busca crescimento e elevação espiritual, anseia autoconhecimento e,sobretudo, convive relativamente bem com seu estado civil de solteira. Ao menos ela diz ser bem resolvida. Em nenhum momento falava de uma mulher fútil ou exclusivamente consumista.

 Pelo contrário, falar em um perfil de "mulher safa" é reconhecer e valorizar pequenos avanços sociais, políticos e subjetivos de um gênero que sempre foi (e ainda é, embora hoje menos) historicamente excluído. 

O ponto em questão, onde me parece que muitas mulheres se incomodaram quando leram (talvez porque seja verdade), se refere ao fato de que, essa mulher moderna, nos comportamentos amorosos de conquista, sedução e andamento do relacionamento, na grande maioria das vezes, não incorpora essa sua "soberania social", sua "autonomia emocional" que já está em vigor para todas as outras facetas da vida. E escrevi reverenciando isso, reivindicando essa igualdade que muitas vivem, também para a vida afetiva-amorosa. Não estou dizendo com isso que as coisas devem se inverter, mas sim divididas. Polarizar a questão seria uma idiotice: não se trata de protagonistas e coadjuvantes ou dominantes e dominados.

 Então: a mulher moderna deveria ser também "revolucionária" com seu próprio desejo como o faz nas outras instâncias de sua vida. Apenas isso. Quando não acontece a transição é aí que se instala a contradição. (o que é uma pena). E aqui pode haver outros desdobramentos como hipótese: seja pela mulher moderna fantasiar demais, confabular, seja pelos bloqueios emocionais causados pelo histórico de relacionamentos fracassados ou até por uma questão de criação, em que na nossa sociedade a mulher é a personagem que é criada para ser cortejada e cresce internalizando e assumindo esse papel. (assim como o homem é criado desde cedo para ser o "predador").

 De qualquer forma, nós todos, que somos seres de consciência, mas que também somos produtos (e produtores) de uma sociedade machista, podemos e devemos pensar, sentir, refletir (esse texto é uma humilde contribuição pra isso) e agir de outras formas que não reproduzam esses costumes.

 Agora, se ainda assim as mulheres quiserem se manter nessa condição ambígua de liberdade e aprisionamento de sentimento, só me resta dizer: desculpe, mulher moderna